07 junho, 2011

Por mim mesmo

Como artista plástico, estou interessado nas coisas que NÃO funcionam.
Por uma série de motivos que comentarei em outro momento.
Vivendo em um lugar como o nosso país, eu teria muito o que me interessar, se pensar bem... tantas coisas que não funcionam...
Mas não é bem por aí.
Estou interessado em tudo aquilo que não serve para o ser humano, que não tem uma explicação lógica para este mundo sob influência de ideais já desgastados há tempos.
Tenho como background uma formação acadêmica em arquitetura e urbanismo, que parou no mestrado, mas tem o doutorado como próxima prioridade. Sou arquiteto e designer. Mas não vendo funcionalidades, nem praticidades para o seu dia-a-dia.
De uma forma quase instintiva, sempre sigo o curso da tentativa de subversão da linguagem. Seja ela qual for.
Ao absorver este conteúdo acadêmico, me preocupei em utilizá-lo para a construção de um mundo que permitisse novas experiências estéticas. Ainda que partisse da representação deste mundo real e concreto, a arquitetura deste mundo seguiria princípios particulares.
Tudo exatamente como mandava a lição das vanguardas artísticas do século XX. Construtivismo Soviético, Die Brucke, Neoplasticismo holandês, o Racionalismo presente no conceito de "espaço abstrato" do Mies Van der Rohe, o precioso Dadaísmo de Tzara, Harp, Ball, Man Ray, Picabia e Duchamp. Tudo novidade indesejada para a sociedade onde vivo hoje, quase um século depois desta preconização da obsolescência do organismo humano enquanto agente do desígnio estético.
Ao admirar essas vanguardas, foi natural seguir princípios filosóficos parecidos na minha produção artística. Também natural algumas fagulhas recaírem sobre outras áreas da minha vida. Saber que as vanguardas são assincrônicas, que elas não existem mais, é, ao mesmo tempo, gratificante e angustiante. Me sinto fora do meu tempo e espaço, mas aliviado por viver em um período posterior ao das vanguardas. E também vivo no ostracismo e em uma quase automática miséria, como a maioria dos artistas deste contexto histórico passado.
Sou professor responsável pela disciplina Estética e História da Arte no curso de arquitetura e urbanismo de uma universidade privada de minha cidade. Sabe a personagem Morpheus, do filme Matrix (o primeiro)? Esse seria o lado bom deste trabalho. Entrar no sistema para tentar clarear alguns caminhos e possibilidades que estão além dele.
Mesmo com este trabalho, não estou diretamente comprometido com as funcionalidades deste mundo falido. Ganho (bem mal, aliás...redundante dizer!) para TENTAR contar às pessoas deste mundo o quanto falido ele é.
Tento vivenciar meu trabalho como uma performance, um happening inspirado em Allan Kaprow, como quem discute o total desgaste do suporte artístico convencional. Tento esculpir no tempo e no espaço, tendo as conexões elétricas dos neurônios dos alunos como um mármore orgânico que se desenvolverá em novas formas, daqui a algum tempo (tomara!).
E quando sobra tempo, me envolvo com a parte imagética e bidimensional deste meu possível mundo à parte. E também tento criar sua trilha sonora, seguindo métodos também não convencionais de produção sonora.
Convites para este meu mundo particular são feitos continuamente.
Be my guest!